Aula 2: O Limite Contínuo e as Variáveis de Criação e Aniquilação
Minicurso: Osciladores Acoplados e a Equação de Klein–Gordon
Autor
Sandro Vitenti
NotaComo usar estas notas
Estas notas acompanham os slides da Aula 2 e seguem a mesma ordem de seções. Elas continuam as notas da Aula 1, e a notação de todo o minicurso está fixada na página do minicurso. O objeto de estudo continua sendo a cadeia de \(N\) partículas; cada resultado é obtido para a cadeia, e os quadros No limite contínuo mostram, em paralelo, a forma que ele toma quando o espaçamento entre as partículas vai a zero. O código Python desta página roda de forma independente: baixe o notebook (link Jupyter) ou abra-o no navegador pelo link Abrir no Colab. As dependências são numpy, scipy e matplotlib.
Na Aula 1 a cadeia periódica de \(N\) partículas foi resolvida exatamente na base de Fourier. Nesta aula continuamos com a mesma cadeia. Nesta seção escrevemos seus parâmetros como os de uma corda, estudamos como a energia e o momento passam de uma partícula para outra, e revemos a relação de dispersão e a base de Fourier; na Seção 2 construímos, a partir das soluções da cadeia, os estados de partículas. Em paralelo, mostramos o que cada resultado se torna no limite em que o espaçamento \(\Delta x\) vai a zero com o comprimento do anel fixo: as alturas passam a formar uma função da posição, o campo, que obedece à equação de Klein–Gordon.
Os resultados da Aula 1 usados aqui são a equação de movimento (Aula 1, Forças e equações de movimento) \[
m\ddot h^j = K\left(h^{j+1} - 2h^j + h^{j-1}\right) - K_0\, h^j,
\qquad j = 0, 1, \dots, N - 1,
\qquad h^{j+N} \equiv h^j,
\tag{1}\] a Hamiltoniana, com \(\{h^j, p_k\} = \delta^j{}_k\) (Aula 1, Energia e Hamiltoniana) \[
H = \sum_{j=0}^{N-1}\left[\frac{p_j^2}{2m} + \frac{K}{2}\left(h^{j+1} - h^j\right)^2 + \frac{K_0}{2}\left(h^j\right)^2\right],
\tag{2}\] os vetores de Fourier \(\vec v_a\), de componentes \(v_a^{\,j} = e^{2\pi i aj/N}/\sqrt N\), as componentes \(\tilde h^a = \vec v_a^{\,\dagger} \vec h\) e \(\tilde p^a = \vec v_a^{\,\dagger} \vec p\), e a relação de dispersão (Aula 1, A relação de dispersão) \[
\omega_a = \sqrt{\frac{K_0 + 4K\sin^2(\pi a/N)}{m}} .
\tag{3}\]
1.1 Os parâmetros de uma corda
A partícula \(j\) está na posição horizontal \[
x_j \equiv j\,\Delta x,
\qquad
L \equiv N\,\Delta x,
\] em que \(L\) é o comprimento do anel. Para comparar cadeias com números de partículas diferentes sobre o mesmo anel, pensamos na cadeia como uma corda de densidade linear de massa \(\rho\), sob tensão \(\tau\), dividida em \(N\) pedaços iguais.
Cada pedaço tem massa \(m = \rho\,\Delta x\).
A tensão exerce sobre um pedaço a força vertical \(\tau\) vezes a inclinação, \(\tau\,(h^{j+1} - h^j)/\Delta x\), para inclinações pequenas. Comparando com a força \(K(h^{j+1} - h^j)\) da mola, \(K = \tau/\Delta x\): é a mesma tensão \(\tau\) da nota sobre molas com comprimento natural na Aula 1.
As molas de constante \(K_0\) representam uma força restauradora por unidade de comprimento, proporcional à altura; escrevemos essa proporcionalidade como \(\rho\mu^2\), e cada pedaço recebe \(K_0 = \rho\mu^2\,\Delta x\).
Então \[
m = \rho\,\Delta x,
\qquad
K = \frac{\tau}{\Delta x},
\qquad
K_0 = \rho\,\mu^2\,\Delta x,
\tag{4}\] com \[
\frac{K_0}{m} = \mu^2,
\qquad
\frac{K}{m} = \frac{\tau}{\rho\,\Delta x^2} \equiv \frac{c^2}{\Delta x^2},
\qquad
c \equiv \sqrt{\tau/\rho} .
\tag{5}\] Os parâmetros \(\rho\), \(\tau\), \(\mu\) e \(c\) descrevem a corda e não dependem de \(N\): duas cadeias com \(N\) diferentes e os mesmos \(\rho\), \(\tau\), \(\mu\) e \(L\) são a mesma corda dividida em pedaços de tamanhos diferentes (Figura 1). A frequência \(\sqrt{K_0/m} = \mu\) do modo uniforme não depende de \(N\); a razão \(K/m\) cresce como \(1/\Delta x^2\). Dividindo Equação 1 por \(\Delta x\), a equação de movimento da cadeia fica \[
\rho\,\ddot h^j = \tau\,\frac{h^{j+1} - 2h^j + h^{j-1}}{\Delta x^2} - \rho\,\mu^2\,h^j .
\tag{6}\]
Figura 1: A mesma corda, de comprimento \(L = 40\), representada por cadeias de \(N = 10\), \(20\) e \(80\) partículas, com alturas \(h^j = \phi(x_j)\) e \(x_j = j\Delta x\). A linha cinza é a função \(\phi(x)\); as linhas azuis ligam partículas vizinhas.
DicaNo limite contínuo: a equação de Klein–Gordon
Descrevemos as alturas por uma função \(\phi(t, x)\), com \(\phi(t, x_j) \equiv h^j(t)\) e \(\phi(t, x + L) = \phi(t, x)\). Com a série de Taylor em \(x\), em que \(\phi'\), \(\phi''\), \(\dots\) são derivadas parciais em relação a \(x\) no ponto \((t, x_j)\), \[
\phi(t, x_j \pm \Delta x) = \phi \pm \Delta x\,\phi' + \frac{\Delta x^2}{2}\,\phi'' \pm \frac{\Delta x^3}{6}\,\phi''' + \frac{\Delta x^4}{24}\,\phi'''' \pm \dots
\] Somando as duas séries, os termos de ordem ímpar se cancelam e os de ordem par dobram: \[
h^{j+1} - 2h^j + h^{j-1} = \Delta x^2\,\phi'' + \frac{\Delta x^4}{12}\,\phi'''' + O(\Delta x^6) .
\tag{7}\] Substituindo em Equação 6 e dividindo por \(\rho\), \[
\frac{\partial^2\phi}{\partial t^2} = c^2\phi'' + \frac{c^2\Delta x^2}{12}\,\phi'''' - \mu^2\phi + O(\Delta x^4),
\] e no limite \(\Delta x \to 0\)\[
\frac{\partial^2\phi}{\partial t^2} - c^2\,\frac{\partial^2\phi}{\partial x^2} + \mu^2\,\phi = 0 ,
\tag{8}\] a equação de Klein–Gordon em uma dimensão espacial. O termo \(\mu^2\phi\), que vem das molas de constante \(K_0\), é o termo de massa; para \(\mu = 0\), Equação 8 é a equação de onda. O termo \(c^2\Delta x^2\phi''''/12\) é a primeira diferença entre a cadeia e o campo.
1.2 A Hamiltoniana
Com Equação 4, a Hamiltoniana Equação 2 é \[
H = \sum_{j=0}^{N-1}\left[\frac{p_j^2}{2\rho\,\Delta x} + \frac{\tau}{2\Delta x}\left(h^{j+1} - h^j\right)^2 + \frac{\rho\,\mu^2\Delta x}{2}\left(h^j\right)^2\right],
\qquad
\{h^j, p_k\} = \delta^j{}_k .
\tag{9}\] Cada termo é \(\Delta x\) vezes uma quantidade que não depende de \(N\), se o momento é medido por unidade de comprimento, \(p_j/\Delta x\), e a diferença de alturas por unidade de comprimento, \((h^{j+1} - h^j)/\Delta x\).
DicaNo limite contínuo: Hamiltoniana e parênteses de Poisson do campo
O momento por unidade de comprimento, \[
\Pi(t, x_j) \equiv \frac{p_j(t)}{\Delta x},
\] tem limite. (Usamos \(\Pi\), e não \(\pi\), porque o número \(\pi\) aparece nos números de onda \(2\pi a/L\) desta página.) Cada termo de 1 é \(\Delta x\) vezes uma função de \(x_j\), e a soma é uma soma de Riemann: \[
H = \int_0^L \left[\frac{\Pi^2}{2\rho} + \frac{\tau}{2}\left(\frac{\partial\phi}{\partial x}\right)^2 + \frac{\rho\,\mu^2}{2}\,\phi^2\right]\mathrm{d}x .
\tag{10}\] As equações de Hamilton \(\dot h^j = p_j/m\) e \(\dot p_j = F_j\), divididas por \(\Delta x\), dão \(\partial_t\phi = \Pi/\rho\) e \(\partial_t\Pi = \tau\phi'' - \rho\mu^2\phi\), e eliminando \(\Pi\) obtemos Equação 8. O parêntese \(\{h^j, p_k\} = \delta^j{}_k\) é \(\{\phi(t, x_j), \Pi(t, x_k)\} = \delta^j{}_k/\Delta x\): nulo para \(j \neq k\), \(1/\Delta x\) para \(j = k\), e com soma de Riemann \(\sum_k \Delta x\,\delta^j{}_k/\Delta x = 1\). No limite, é a delta de Dirac: \[
\left\{\phi(t, x),\, \Pi(t, y)\right\} = \delta(x - y) .
\tag{11}\]
1.3 O fluxo de energia
A energia total \(H\) é conservada, mas ela não fica parada: passa de uma partícula para a vizinha através das molas. Para acompanhar esse movimento, dividimos \(H\) em partes localizadas na cadeia.
A energia de cada oscilador. A partícula \(j\) com a sua mola de constante \(K_0\) forma um oscilador, o da Aula 1 com \(\kappa = K_0\). A sua energia, cinética mais a da mola \(K_0\), é \[
E_j \equiv \frac{p_j^2}{2m} + \frac{K_0}{2}\left(h^j\right)^2 .
\] Se \(K = 0\), cada \(E_j\) é conservada separadamente.
A energia de cada mola. A mola de constante \(K\) entre as partículas \(j\) e \(j + 1\) guarda a energia \[
E_{j+1/2} \equiv \frac{K}{2}\left(h^{j+1} - h^j\right)^2,
\] sem o termo constante \(K\Delta x^2/2\) da Aula 1. O índice \(j + 1/2\) indica onde essa energia está: a mola liga \(x_j\) a \(x_{j+1}\), e o seu ponto médio é \[
x_{j+1/2} \equiv \left(j + \tfrac12\right)\Delta x .
\] Na notação, índices inteiros \(j\) marcam grandezas que estão nas partículas, e índices semi-inteiros \(j + 1/2\) marcam grandezas que estão nas molas entre elas. A Hamiltoniana Equação 2 é a soma das duas: \[
H = \sum_{j=0}^{N-1}\left(E_j + E_{j+1/2}\right).
\]
Como \(E_j\) e \(E_{j+1/2}\) variam. Com \(\dot h^j = p_j/m\) e Equação 1, \[
\dot E_j = \frac{p_j\,\dot p_j}{m} + K_0\,h^j\,\dot h^j
= \dot h^j\left(\dot p_j + K_0 h^j\right)
= K\left(h^{j+1} - h^j\right)\dot h^j - K\left(h^j - h^{j-1}\right)\dot h^j .
\] Os termos com \(K_0\) se cancelaram: a mola \(K_0\) só troca energia com a sua própria partícula. Os dois termos que sobram são a potência (força vezes velocidade) que a mola da direita e a mola da esquerda fazem sobre a partícula \(j\). Para a mola, \[
\dot E_{j+1/2} = K\left(h^{j+1} - h^j\right)\left(\dot h^{j+1} - \dot h^j\right)
= -K\left(h^{j+1} - h^j\right)\dot h^j + K\left(h^{j+1} - h^j\right)\dot h^{j+1} :
\] a mola perde a potência que entrega à partícula \(j\) e ganha a que recebe da partícula \(j + 1\), com os sinais trocados, pois a força que ela exerce sobre \(j + 1\) é \(-K(h^{j+1} - h^j)\). A energia que sai de uma partícula entra numa mola, e vice-versa.
A energia de uma partícula e o fluxo. Para obter uma energia por partícula, atribuímos a cada partícula o seu oscilador e metade de cada uma das duas molas ligadas a ela: \[
e_j \equiv E_j + \frac{E_{j-1/2} + E_{j+1/2}}{2}
= \frac{p_j^2}{2m} + \frac{K_0}{2}\left(h^j\right)^2 + \frac{K}{4}\left[\left(h^{j+1} - h^j\right)^2 + \left(h^j - h^{j-1}\right)^2\right],
\qquad
\sum_j e_j = H .
\] Somando as três derivadas acima, \[
\dot e_j = \dot E_j + \frac{\dot E_{j-1/2} + \dot E_{j+1/2}}{2}
= K\left(h^{j+1} - h^j\right)\frac{\dot h^j + \dot h^{j+1}}{2} - K\left(h^j - h^{j-1}\right)\frac{\dot h^{j-1} + \dot h^j}{2},
\] isto é, \[
\dot e_j = -\left(S_{j+1/2} - S_{j-1/2}\right),
\qquad
S_{j+1/2} \equiv -\frac{K}{2}\left(h^{j+1} - h^j\right)\left(\dot h^j + \dot h^{j+1}\right) .
\tag{12}\]\(S_{j+1/2}\) é o fluxo de energia da cadeia: a energia que atravessa a mola entre \(j\) e \(j + 1\) por unidade de tempo, no sentido de \(j\) crescente. Ele está na mola, daí o índice semi-inteiro. Numa dimensão um fluxo não é dividido por nenhuma área, e o fluxo de energia tem unidade de potência. Ele é a média entre a potência que a mola recebe de \(j\), \(-K(h^{j+1} - h^j)\dot h^j\), e a que ela entrega a \(j + 1\), \(-K(h^{j+1} - h^j)\dot h^{j+1}\). A energia de cada partícula só muda pela energia que entra ou sai pelas suas duas molas.
Por que \(S_{j+1/2}\) é um fluxo. Somando Equação 12 sobre um trecho qualquer da cadeia, das partículas \(a\) a \(b\), os termos internos se cancelam aos pares: \[
\frac{\mathrm d}{\mathrm dt}\sum_{j=a}^{b} e_j
= -\sum_{j=a}^{b}\left(S_{j+1/2} - S_{j-1/2}\right)
= S_{a-1/2} - S_{b+1/2} .
\] A energia do trecho muda apenas pelo que passa pelas duas molas das extremidades: entra \(S_{a-1/2}\) pela esquerda e sai \(S_{b+1/2}\) pela direita. O que acontece dentro do trecho não aparece. É isso que faz de \(S_{j+1/2}\) um fluxo: um número associado a cada fronteira entre duas partes da cadeia, tal que a energia de cada parte só muda pelo que atravessa as suas fronteiras. Para o anel inteiro não há fronteira, e \(\dot H = 0\). Fisicamente, \(S_{j+1/2}\) é a potência que a parte da cadeia à esquerda da mola realiza sobre a parte à direita: a força da mola sobre a partícula \(j + 1\), \(-K(h^{j+1} - h^j)\), vezes a velocidade média das duas extremidades da mola.
As mesmas grandezas em termos de \(\Delta x\). Com Equação 4, \(m = \rho\Delta x\), \(K = \tau/\Delta x\) e \(K_0 = \rho\mu^2\Delta x\), as energias são \[
E_j = \Delta x\left[\frac{1}{2\rho}\left(\frac{p_j}{\Delta x}\right)^2 + \frac{\rho\,\mu^2}{2}\left(h^j\right)^2\right],
\qquad
E_{j+1/2} = \Delta x\;\frac{\tau}{2}\left(\frac{h^{j+1} - h^j}{\Delta x}\right)^2,
\] e o fluxo é \[
S_{j+1/2} = -\tau\;\frac{h^{j+1} - h^j}{\Delta x}\;\frac{\dot h^j + \dot h^{j+1}}{2} .
\] Cada energia é \(\Delta x\) vezes uma combinação do momento por unidade de comprimento \(p_j/\Delta x\), da altura \(h^j\) e da inclinação \((h^{j+1} - h^j)/\Delta x\), nenhuma das quais depende de \(N\). O fluxo não tem o fator \(\Delta x\): é uma potência, e não uma energia guardada num trecho de comprimento \(\Delta x\). Dividindo Equação 12 por \(\Delta x\), \[
\frac{\mathrm d}{\mathrm dt}\left(\frac{e_j}{\Delta x}\right) = -\,\frac{S_{j+1/2} - S_{j-1/2}}{\Delta x} :
\tag{13}\] a variação da energia por unidade de comprimento em \(x_j\) é menos a diferença entre o fluxo à direita e o fluxo à esquerda, dividida pela distância \(\Delta x\) entre os pontos \(x_{j+1/2}\) e \(x_{j-1/2}\) onde esses fluxos estão.
A energia não anda mais depressa que \(c\). O fluxo \(S_{j+1/2}\) está numa mola, e deve ser comparado com a energia associada a essa mola. Atribuímos à mola entre \(j\) e \(j+1\) a sua própria energia \(E_{j+1/2}\) e metade da energia de cada um dos dois osciladores que ela liga: \[
e_{j+1/2} \equiv E_{j+1/2} + \frac{E_j + E_{j+1}}{2}
= \frac{K}{2}\left(h^{j+1} - h^j\right)^2 + \frac{p_j^2 + p_{j+1}^2}{4m} + \frac{K_0}{4}\left[\left(h^j\right)^2 + \left(h^{j+1}\right)^2\right],
\qquad
\sum_j e_{j+1/2} = H .
\] Com a velocidade do ponto médio da mola, \[
\dot h^{j+1/2} \equiv \frac{\dot h^j + \dot h^{j+1}}{2},
\qquad\text{o fluxo é}\qquad
S_{j+1/2} = -K\left(h^{j+1} - h^j\right)\dot h^{j+1/2} .
\] A desigualdade sai em quatro passos, cada um a partir de um quadrado que não é negativo.
O produto é limitado pela soma das energias. O quadrado da diferença entre \(\sqrt K\,|h^{j+1} - h^j|\) e \(\sqrt m\,|\dot h^{j+1/2}|\) não é negativo; expandindo o quadrado, \[
\sqrt{Km}\;\left|h^{j+1} - h^j\right|\left|\dot h^{j+1/2}\right|
\le \frac K2\left(h^{j+1} - h^j\right)^2 + \frac m2\left(\dot h^{j+1/2}\right)^2 .
\] Multiplicando por \(\sqrt{K/m}\), o lado esquerdo é \(|S_{j+1/2}|\): \[
|S_{j+1/2}| \le \sqrt{\frac Km}\left[E_{j+1/2} + \frac m2\left(\dot h^{j+1/2}\right)^2\right].
\] O fluxo é limitado pela energia da mola mais a energia cinética do seu ponto médio.
A energia cinética do ponto médio não passa da média das duas. De \(\left(\dot h^j - \dot h^{j+1}\right)^2 \ge 0\) segue \(\left(\dot h^{j+1/2}\right)^2 \le \left[(\dot h^j)^2 + (\dot h^{j+1})^2\right]/2\), e portanto \[
\frac m2\left(\dot h^{j+1/2}\right)^2 \le \frac{p_j^2 + p_{j+1}^2}{4m} .
\]
Os termos com \(K_0\) só aumentam o lado direito. Somando \(\frac{K_0}{4}\left[(h^j)^2 + (h^{j+1})^2\right] \ge 0\), o colchete vira \(e_{j+1/2}\): \[
|S_{j+1/2}| \le \sqrt{\frac Km}\;e_{j+1/2} .
\]
O coeficiente é \(c/\Delta x\). Por Equação 5, \(K/m = c^2/\Delta x^2\): \[
|S_{j+1/2}| \le \frac{c}{\Delta x}\,e_{j+1/2} .
\tag{14}\]
A leitura como velocidade. A energia por unidade de comprimento na mola é \(e_{j+1/2}/\Delta x\). Um fluxo é uma densidade vezes a velocidade com que ela se move, como a corrente elétrica é a densidade de carga vezes a velocidade das cargas. A velocidade da energia na mola é, então, \[
\frac{S_{j+1/2}}{e_{j+1/2}/\Delta x},
\qquad
\left|\frac{S_{j+1/2}}{e_{j+1/2}/\Delta x}\right| \le c .
\] O limite \(c = \sqrt{\tau/\rho}\) não depende de \(N\): vale para toda cadeia que representa a mesma corda, e por isso sobrevive ao limite contínuo. Como o fluxo em cada mola é no máximo \(c\) vezes a densidade de energia ali, a energia de uma perturbação inicialmente localizada não se espalha mais depressa que \(c\) (Seção 1.7).
Quando o limite é atingido. As três desigualdades viram igualdades quando: (passo 1) a energia da mola é igual à energia cinética do ponto médio, \(\sqrt K\,|h^{j+1} - h^j| = \sqrt m\,|\dot h^{j+1/2}|\); (passo 2) as duas extremidades têm a mesma velocidade, \(\dot h^j = \dot h^{j+1}\); e (passo 3) \(K_0 = 0\) ou \(h^j = h^{j+1} = 0\). Uma onda sem massa que avança sem se deformar, \(h^j(t) = g(x_j - ct)\) com \(g\) variando pouco numa distância \(\Delta x\), satisfaz as três aproximadamente: nela \(\dot h = -c\,\partial h/\partial x\), a energia cinética é igual à potencial, e \(S_{j+1/2}\Delta x/e_{j+1/2} \approx c\). Com \(\mu > 0\), parte da energia está nas molas \(K_0\), que não transportam nada, e a energia anda mais devagar que \(c\).
DicaNo limite contínuo: densidade e fluxo de energia
Com \(p_j = \Delta x\,\Pi(t, x_j)\), \(h^j = \phi(t, x_j)\) e \((h^{j+1} - h^j)/\Delta x \to \partial\phi/\partial x\), as expressões em termos de \(\Delta x\) dão \(E_j/\Delta x \to \Pi^2/(2\rho) + \rho\mu^2\phi^2/2\) e \(E_{j+1/2}/\Delta x \to (\tau/2)(\partial\phi/\partial x)^2\). As energias \(e_j/\Delta x\) e \(e_{j+1/2}/\Delta x\) tendem à mesma densidade de energia \(\mathcal E\), e \(S_{j+1/2}\) tende ao fluxo \(\mathcal S\), com \[
\mathcal E \equiv \frac{\Pi^2}{2\rho} + \frac{\tau}{2}\left(\frac{\partial\phi}{\partial x}\right)^2 + \frac{\rho\,\mu^2}{2}\,\phi^2,
\qquad
\mathcal S \equiv -\tau\,\frac{\partial\phi}{\partial x}\,\frac{\partial\phi}{\partial t} = -c^2\,\Pi\,\frac{\partial\phi}{\partial x} .
\] Em Equação 13, a diferença \(S_{j+1/2} - S_{j-1/2}\) dividida por \(\Delta x\) dá a derivada em \(x\): \[
\frac{\partial\mathcal E}{\partial t} + \frac{\partial\mathcal S}{\partial x} = 0 ,
\tag{15}\] e Equação 14 dá \(|\mathcal S| \le c\,\mathcal E\). Diretamente, \(c\left(\Pi^2/(2\rho) + \tau\phi'^2/2\right) - |\mathcal S| = \tfrac{c}{2}\left(|\Pi|/\sqrt\rho - \sqrt\tau\,|\phi'|\right)^2 \ge 0\). Para \(\mu = 0\) e uma onda que se move no sentido de \(x\) crescente, \(\phi = g(x - ct)\), vale \(\mathcal S = c\,\mathcal E\) em todo ponto.
1.4 O momento ao longo da cadeia
A cadeia é invariante pela translação \(T\), que leva cada configuração à configuração deslocada de uma partícula. A grandeza conservada associada a essa simetria é o momento da cadeia\[
P_{\rm rede} \equiv -\sum_{j=0}^{N-1} p_j\,\frac{h^{j+1} - h^{j-1}}{2\Delta x}
= -\frac{\vec p^{\mathsf T}\left(T - T^{-1}\right)\vec h}{2\Delta x} .
\tag{16}\] Ela é conservada exatamente. Com \(\dot{\vec h} = \vec p/m\) e \(\dot{\vec p} = -(KD + K_0 I)\vec h\), \[
-2\Delta x\,\dot P_{\rm rede} = -\vec h^{\mathsf T}\left(KD + K_0 I\right)\left(T - T^{-1}\right)\vec h + \frac{1}{m}\,\vec p^{\mathsf T}\left(T - T^{-1}\right)\vec p .
\] A matriz \(T - T^{-1}\) é antissimétrica, pois \(T^{-1} = T^{\mathsf T}\), e uma forma quadrática \(\vec p^{\mathsf T}M\vec p\) com \(M\) antissimétrica é nula. A matriz \((KD + K_0 I)(T - T^{-1})\) também é antissimétrica, porque \(KD + K_0 I\) é simétrica e comuta com \(T\) (é circulante, Aula 1). Os dois termos são nulos, e \(\dot P_{\rm rede} = 0\). O momento também é a soma dos fluxos de energia: \[
\Delta x\sum_j S_{j+1/2} = -\frac{K\Delta x}{2m}\sum_j p_j\left(h^{j+1} - h^{j-1}\right) = c^2\,P_{\rm rede},
\] em que a primeira igualdade vem de expandir \((h^{j+1} - h^j)(p_j + p_{j+1})\) em Equação 12 e trocar \(j + 1\) por \(j\) nos termos com \(p_{j+1}\), e a segunda usa \(K/m = c^2/\Delta x^2\).
Há três grandezas conservadas na cadeia, cada uma associada a uma simetria:
Simetria
Grandeza conservada
translação no tempo
energia \(H\)
translação \(T\) por uma partícula
momento da cadeia \(P_{\rm rede}\)
deslocamento \(\vec h \to \vec h + \beta\,\vec 1\) (somente para \(K_0 = 0\))
momento vertical \(P = \sum_j p_j\)
O momento vertical \(P\) é o da Aula 1, das massas que se movem na vertical. O momento da cadeia descreve o transporte ao longo do anel e é conservado para qualquer \(K_0\).
DicaNo limite contínuo: o momento do campo
Com \(p_j = \Delta x\,\Pi(x_j)\), \(P_{\rm rede} = \sum_j \Delta x\left[-\Pi(x_j)\,\left(\phi(x_{j+1}) - \phi(x_{j-1})\right)/(2\Delta x)\right] \to \int_0^L\mathcal P\,\mathrm{d}x\), com densidade e fluxo \[
\mathcal P \equiv -\Pi\,\frac{\partial\phi}{\partial x},
\qquad
\mathcal T \equiv \frac{\Pi^2}{2\rho} + \frac{\tau}{2}\left(\frac{\partial\phi}{\partial x}\right)^2 - \frac{\rho\,\mu^2}{2}\,\phi^2,
\qquad
\frac{\partial\mathcal P}{\partial t} + \frac{\partial\mathcal T}{\partial x} = 0 .
\tag{17}\] A lei de conservação segue de \(\partial_t\mathcal P = -\tau\phi''\phi' + \rho\mu^2\phi\phi' - \Pi\Pi'/\rho = -\partial_x\mathcal T\). O sinal de \(\mathcal P\) dá momento positivo a uma onda que se move no sentido de \(x\) crescente: para \(\phi = g(x - ct)\), \(\Pi = -\rho c\,g'\) e \(\mathcal P = \rho c\,g'^2\). A relação \(\Delta x\sum_j S_{j+1/2} = c^2 P_{\rm rede}\) vale ponto a ponto no campo: \(\mathcal S = c^2\mathcal P\). A translação \(T\) por uma partícula passa a ser a translação por qualquer distância.
1.5 Relação de dispersão e velocidade de grupo
O índice de Fourier \(a\) corresponde ao número de onda\[
k_a \equiv \frac{2\pi a}{L},
\qquad\text{com}\qquad
\frac{\pi a}{N} = \frac{k_a\,\Delta x}{2},
\] e Equação 3, com Equação 5, é \[
\omega_a = \omega_{\Delta x}(k_a),
\qquad
\omega_{\Delta x}(k) \equiv \sqrt{\mu^2 + \frac{4c^2}{\Delta x^2}\sin^2\frac{k\,\Delta x}{2}} .
\tag{18}\] Os números de onda vão até cerca de \(\pi/\Delta x\) (o maior \(|a|\) do intervalo simétrico é próximo de \(N/2\)): a cadeia descreve comprimentos de onda de no mínimo \(2\Delta x\).
Velocidade de grupo. Um pacote de ondas com números de onda próximos de \(k\) se move com a velocidade de grupo \[
\frac{\mathrm{d}\omega_{\Delta x}}{\mathrm{d}k} = \frac{c^2\,\kappa(k)}{\omega_{\Delta x}(k)},
\qquad
\kappa(k) \equiv \frac{\sin(k\,\Delta x)}{\Delta x},
\] (Figura 8), e \[
c^2\cos^2\frac{k\Delta x}{2} - \left(\frac{\mathrm{d}\omega_{\Delta x}}{\mathrm{d}k}\right)^2
= \frac{c^2\mu^2}{\omega_{\Delta x}^2}\cos^2\frac{k\Delta x}{2} \ge 0,
\] logo \(|\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k| \le c\cos(k\Delta x/2) \le c\): nenhum modo da cadeia tem velocidade de grupo maior que \(c\). O número \(\kappa_a \equiv \kappa(k_a)\) reaparece na Seção 2.2, como o momento da cadeia de cada modo.
DicaNo limite contínuo: a relação de dispersão de Klein–Gordon
Para \(k\) fixo e \(\Delta x \to 0\), com \(\sin y = y - y^3/6 + O(y^5)\), \[
\omega_{\Delta x}(k)^2 = \mu^2 + c^2k^2 - \frac{c^2k^4\Delta x^2}{12} + O(\Delta x^4)
\quad\longrightarrow\quad
\omega(k)^2 \equiv \mu^2 + c^2k^2 ,
\tag{19}\] que é o que se obtém substituindo \(\phi = e^{i(kx - \omega t)}\) em Equação 8. O termo \(-c^2k^4\Delta x^2/12\) é o \(c^2\Delta x^2\phi''''/12\) da equação aplicado à onda plana, e \(\kappa(k) \to k\). A velocidade de grupo é \(\mathrm{d}\omega/\mathrm{d}k = c^2k/\omega(k) < c\) para \(\mu > 0\), e \(c\) para \(\mu = 0\). A velocidade de fase \(\omega/k = \sqrt{\mu^2 + c^2k^2}/k\), a das cristas, é maior que \(c\) para \(\mu > 0\), mas as cristas não transportam o pacote (Figura 8).
Figura 2: Esquerda: relação de dispersão da cadeia \(\omega_{\Delta x}(k)\) para \(\Delta x = 1\), \(0{,}5\) e \(0{,}25\), até \(k = \pi/\Delta x\), e a do contínuo \(\omega(k) = \sqrt{\mu^2 + c^2k^2}\) (preta), com \(c = \mu = 1\). Em \(k = 2\) o erro relativo \(\omega_{\Delta x}/\omega - 1\) é \(-1{,}2\times 10^{-1}\), \(-3{,}3\times 10^{-2}\) e \(-8{,}3\times 10^{-3}\), dividido por cerca de \(4\) a cada \(\Delta x\) dividido por \(2\). Direita: velocidade de grupo \(\mathrm{d}\omega/\mathrm{d}k\) para os mesmos casos; todas ficam abaixo de \(c = 1\) (tracejada).
Com \(x_j = j\Delta x\), o expoente dos vetores de Fourier é \(2\pi aj/N = k_a x_j\): \[
v_a^{\,j} = \frac{e^{i k_a x_j}}{\sqrt N} .
\] A base é ortonormal, \(\vec v_a^{\,\dagger} \vec v_b = \delta_{ab}\), e completa: a matriz \(U\) com colunas \(\vec v_a\) é unitária, e \(UU^\dagger = I\) é \[
\sum_a v_a^{\,j}\,\left(v_a^{\,k}\right)^* = \delta^{jk} .
\tag{20}\] Cada modo da cadeia é um oscilador de frequência \(\omega_a\) (Aula 1, Modos normais): \(\tilde h^a(t) = \tilde h^a(0)\cos\omega_a t + \tilde p^a(0)\sin(\omega_a t)/(m\omega_a)\).
DicaNo limite contínuo: a série de Fourier
Com \(N = L/\Delta x\), \[
v_a^{\,j} = \sqrt{\Delta x}\; u_a(x_j),
\qquad
u_a(x) \equiv \frac{e^{i k_a x}}{\sqrt L} .
\tag{21}\] A ortonormalidade é uma soma de Riemann, \(\delta_{ab} = \sum_j \Delta x\,u_a^*(x_j)\,u_b(x_j) \to \int_0^L u_a^*u_b\,\mathrm{d}x\), e as componentes de Fourier são \(\tilde h^a = \tilde\phi^a/\sqrt{\Delta x}\) e \(\tilde p^a = \sqrt{\Delta x}\,\tilde\Pi^a\), com \[
\tilde\phi^a \equiv \sum_j \Delta x\,u_a^*(x_j)\,\phi(x_j) \to \int_0^L u_a^*\,\phi\,\mathrm{d}x,
\qquad
\phi(x) = \sum_{a \in \mathbb Z}\tilde\phi^a\, u_a(x) ,
\tag{22}\] a série de Fourier complexa de uma função de período \(L\), e \(\tilde\Pi^a\) da mesma forma. A soma vai sobre todos os inteiros porque o intervalo simétrico \(-(N-1)/2 \le a \le (N-1)/2\) cresce nos dois sentidos. Com \(0 \le a \le N - 1\) o limite estaria errado: \(a = N - 1\) e \(a = -1\) dão o mesmo vetor \(\vec v_a\), mas \(u_{N-1}(x)\) oscila \(N - 1\) vezes ao longo do anel e \(u_{-1}(x)\) uma vez (Aula 1, A base de Fourier). A completeza Equação 20, dividida por \(\Delta x\), dá \(\sum_a u_a(x_j)\,u_a^*(x_k) = \delta^{jk}/\Delta x\), e no limite \(\sum_{a \in \mathbb Z} u_a(x)\,u_a^*(y) = \delta(x - y)\). Cada modo do campo é um oscilador de frequência \(\omega(k_a)\).
1.7 Simulações
A solução exata da cadeia da Aula 1 é usada aqui com a frequência de cada modo dada por \(\omega_{\Delta x}(k_a)\). Trocando essa frequência por \(\omega(k_a)\), a mesma função dá a solução de Klein–Gordon na mesma rede, e podemos comparar as duas. Usamos \(c = \rho = 1\) e um anel de comprimento \(L = 40\).
c, rho, L =1.0, 1.0, 40.0def numeros_de_onda(N, L):"""k_a = 2 pi a / L, na ordem de np.fft (a = 0, 1, ..., seguidos dos negativos)."""return2* np.pi * np.fft.fftfreq(N, d=L / N)def omega_cadeia(k, dx, mu):return np.sqrt(mu**2+4* c**2/ dx**2* np.sin(k * dx /2) **2)def omega_continuo(k, mu):return np.sqrt(mu**2+ c**2* k**2)def evolui(h0, p0, t, w, m):"""Alturas e momentos nos instantes t, evoluindo cada modo com a frequência w.""" ft0, pt0 = np.fft.fft(h0), np.fft.fft(p0) t = np.asarray(t)[:, None] ft = ft0 * np.cos(w * t) + pt0 / m * t * np.sinc(w * t / np.pi) pt = pt0 * np.cos(w * t) - m * w * ft0 * np.sin(w * t)return np.fft.ifft(ft, axis=1).real, np.fft.ifft(pt, axis=1).realdef energia_e_fluxo(h, p, dx, mu):"""Energias das molas e_{j+1/2} e fluxos S_{j+1/2} da cadeia (escalas da corda).""" m, K, K0 = rho * dx, rho * c**2/ dx, rho * mu**2* dx h1, p1 = np.roll(h, -1, axis=-1), np.roll(p, -1, axis=-1) e_mola = K /2* (h1 - h) **2+ (p**2+ p1**2) / (4* m) + K0 * (h**2+ h1**2) /4 S =-K /2* (h1 - h) * (p + p1) / mreturn e_mola, S
A condição inicial é uma gaussiana em repouso, \(h^j(0) = e^{-(x_j - x_0)^2/(2\sigma^2)}\) e \(p_j(0) = 0\), com \(x_0 = L/2\) e \(\sigma = 0{,}5\), na cadeia com \(N = 512\) (\(\Delta x = 0{,}078\), cerca de \(6\) partículas por largura \(\sigma\)).
O cone de luz. A Figura 3 mostra a cadeia para \(\mu = 0\) e \(\mu = 1\), junto com as retas \(x = x_0 \pm ct\). Como nenhum modo tem velocidade de grupo maior que \(c\), a perturbação não sai da região \(|x - x_0| \le ct\), o cone de luz do ponto inicial, a menos da cauda da gaussiana.
Figura 3: Alturas \(h^j(t)\) na cadeia com \(N = 512\) (\(\Delta x = 0{,}078\), \(c = 1\)) a partir da gaussiana em repouso de largura \(\sigma = 0{,}5\) centrada em \(x_0 = 20\); as linhas tracejadas são \(x = x_0 \pm ct\). Esquerda, \(\mu = 0\): dois pulsos se afastam com velocidade \(c\) e o centro volta ao repouso, \(h(15, x_0) = 0{,}000\). Direita, \(\mu = 1\): a cadeia continua oscilando dentro do cone, \(h(15, x_0) = -0{,}129\). Fora da região \(|x - x_0| > ct + 5\sigma\), \(|h^j|\) não passa de \(1{,}5\times 10^{-5}\) (\(\mu = 0\)) e \(5{,}8\times 10^{-6}\) (\(\mu = 1\)), contra \(3{,}4\times 10^{-6}\) da cauda da gaussiana no contínuo.
N_ref =4096x_ref = np.arange(N_ref) * L / N_refk_ref = numeros_de_onda(N_ref, L)for mu in [0.0, 1.0]: hs, ps = evolui(gaussiana(x), 0* x, t_cone, omega_cadeia(numeros_de_onda(N, L), dx, mu), rho * dx) fora = np.abs(x[None, :] - x0) > c * t_cone[:, None] +5* sigma hs_c, ps_c = evolui(gaussiana(x_ref), 0* x_ref, t_cone, omega_continuo(k_ref, mu), rho * L / N_ref) fora_c = np.abs(x_ref[None, :] - x0) > c * t_cone[:, None] +5* sigmaprint(f"mu = {mu}: max |h| fora de |x - x0| <= ct + 5 sigma: cadeia {np.abs(hs[fora]).max():.1e}, "f"contínuo {np.abs(hs_c[fora_c]).max():.1e}; h(15, x0) = {hs[-1, N //2]:.3f}")
mu = 0.0: max |h| fora de |x - x0| <= ct + 5 sigma: cadeia 1.5e-05, contínuo 3.4e-06; h(15, x0) = -0.000
mu = 1.0: max |h| fora de |x - x0| <= ct + 5 sigma: cadeia 5.8e-06, contínuo 3.4e-06; h(15, x0) = -0.129
A animação mostra a mesma evolução no tempo, com as bordas do cone de luz marcadas.
Figura 4: Animação da Figura 3: alturas \(h^j(t)\) na cadeia com \(N = 512\) para \(\mu = 0\) (esquerda) e \(\mu = 1\) (direita), \(0 \le t \le 15\); as linhas tracejadas são as bordas do cone de luz, \(x = x_0 \pm ct\). Com \(\mu = 0\) os dois pulsos andam sobre as bordas do cone; com \(\mu = 1\) eles ficam um pouco atrás das bordas e deixam a cadeia oscilando dentro do cone.
Na cadeia a região fora do cone não fica exatamente como no contínuo: os modos de \(k\) grande, cuja frequência a cadeia altera mais, deixam uma pequena cauda fora do cone. Em \(t = 15\), com \(\mu = 0\), a diferença entre a cadeia e o contínuo cai de \(2{,}8\times 10^{-4}\) para \(1{,}8\times 10^{-7}\) quando a distância ao cone, \(|x - x_0| - ct\), passa de \(2\) para \(4\).
DicaNo limite contínuo: a cadeia converge para Klein–Gordon
Comparamos a cadeia com \(N = 128\), \(256\), \(512\) e \(1024\) partículas com a solução de Klein–Gordon calculada na rede fina \(N = 4096\), em \(t = 15\). Para \(\mu = 0\), a solução de Klein–Gordon é a de d’Alembert, \(\phi(t, x) = \tfrac12\left[\phi(0, x - ct) + \phi(0, x + ct)\right]\).
A diferença cai por um fator que tende a \(4\) quando \(\Delta x\) é dividido por \(2\): a cadeia converge para a solução de Klein–Gordon com erro de ordem \(\Delta x^2\), como previsto pelo termo \(c^2\Delta x^2\phi''''/12\). Para \(N = 128\) (\(\sigma/\Delta x = 1{,}6\)) a gaussiana mal é resolvida e a razão ainda está longe de \(4\).
A comparação da cadeia com a solução de Klein–Gordon, descrita no quadro acima:
ts = np.array([0.0, 5.0, 10.0, 15.0])referencia = {mu: evolui(gaussiana(x_ref), 0* x_ref, ts, omega_continuo(k_ref, mu), rho * L / N_ref)[0]for mu in [0.0, 1.0]}dalembert =0.5* (gaussiana(x_ref[None, :] - c * ts[:, None]) + gaussiana(x_ref[None, :] + c * ts[:, None]))print(f"mu = 0: max |Klein-Gordon (N = 4096) - d'Alembert| = {np.abs(referencia[0.0] - dalembert).max():.1e}")for mu in [0.0, 1.0]: erros = []for N_c in [128, 256, 512, 1024]: x_c = np.arange(N_c) * L / N_c sol = evolui(gaussiana(x_c), 0* x_c, ts, omega_cadeia(numeros_de_onda(N_c, L), L / N_c, mu), rho * L / N_c)[0] erros.append(np.abs(sol[-1] - referencia[mu][-1, :: N_ref // N_c]).max()) razoes =", ".join(f"{erros[i] / erros[i +1]:.2f}"for i inrange(3))print(f"mu = {mu}: max |cadeia - Klein-Gordon| em t = 15 para N = 128, 256, 512, 1024: "+", ".join(f"{e:.2e}"for e in erros) +f" (razões {razoes})")
mu = 0: max |Klein-Gordon (N = 4096) - d'Alembert| = 5.4e-16
mu = 0.0: max |cadeia - Klein-Gordon| em t = 15 para N = 128, 256, 512, 1024: 1.94e-01, 8.04e-02, 2.16e-02, 5.32e-03 (razões 2.41, 3.72, 4.07)
mu = 1.0: max |cadeia - Klein-Gordon| em t = 15 para N = 128, 256, 512, 1024: 1.70e-01, 7.85e-02, 2.17e-02, 5.38e-03 (razões 2.16, 3.62, 4.03)
A animação abaixo mostra a convergência com uma gaussiana mais larga, \(\sigma = 2\), e cadeias com poucas partículas, em que a diferença é visível.
Figura 5: Animação: gaussiana em repouso de largura \(\sigma = 2\), com \(\mu = 1\), em cadeias de \(N = 16\), \(32\) e \(128\) partículas (vermelho) e na solução de Klein–Gordon (cinza), durante \(0 \le t \le 15\). A maior diferença entre a cadeia e a solução de Klein–Gordon nesse intervalo é \(0{,}136\) para \(N = 16\) (\(\sigma/\Delta x = 0{,}8\)), \(0{,}053\) para \(N = 32\) e \(0{,}004\) para \(N = 128\).
for N_cv, (x_cv, h_cv) in cadeias_cv.items():print(f"N = {N_cv:4d}: max |cadeia - Klein-Gordon| para 0 <= t <= 15: {np.abs(h_cv - ref_cv[:, :: N_ref // N_cv]).max():.3f}")
N = 16: max |cadeia - Klein-Gordon| para 0 <= t <= 15: 0.136
N = 32: max |cadeia - Klein-Gordon| para 0 <= t <= 15: 0.053
N = 128: max |cadeia - Klein-Gordon| para 0 <= t <= 15: 0.004
O fluxo de energia. Conferimos Equação 12: a energia das partículas com \(|x_j - x_0| < 5\) varia exatamente pela energia que atravessa as molas nas duas pontas do intervalo, integrada no tempo (regra do trapézio com \(4801\) instantes).
mu = 0.0: energia em |x - x0| < 5: 0.8835 em t = 0, 0.0000 em t = 12; max |E(t) - E(0) + energia que saiu| = 1.2e-06
mu = 1.0: energia em |x - x0| < 5: 1.3266 em t = 0, 0.1151 em t = 12; max |E(t) - E(0) + energia que saiu| = 1.6e-06
A Figura 6 mostra a energia por unidade de comprimento de cada mola, \(e_{j+1/2}/\Delta x\), e a velocidade da energia em cada mola, \(S_{j+1/2}\Delta x/e_{j+1/2}\), para \(\mu = 1\).
Figura 6: Gaussiana em repouso (\(\sigma = 0{,}5\), \(x_0 = 20\)) na cadeia com \(N = 512\) e \(c = \mu = 1\). Esquerda: energia por unidade de comprimento de cada mola, \(e_{j+1/2}/\Delta x\) (escala logarítmica); a maior parte da energia viaja junto ao cone de luz (tracejado), e em \(t = 15\) apenas \(12\%\) dela está em \(|x - x_0| < ct/2\). Direita: velocidade da energia em cada mola, \(S_{j+1/2}\Delta x/e_{j+1/2}\), onde \(e_{j+1/2}/\Delta x\) é maior que \(10^{-3}\) do seu máximo; ela fica entre \(-c\) e \(c\), com \(|S_{j+1/2}|\Delta x/(c\,e_{j+1/2}) \le 0{,}9968\), e é próxima de \(\pm c\) junto ao cone (o máximo da energia em \(t = 15\) se move com \(0{,}985\,c\)) e menor no interior.
print(f"max |S| dx / (c e_mola) onde e_mola/dx > 1e-3 do máximo: {np.abs(S[mascara] * dx / (c * e_mola[mascara])).max():.4f}")x_mola = x + dx /2j_max = np.argmax(dens[-1] * (x_mola > x0))dentro = np.abs(x_mola - x0) < c * t_e[-1] /2print(f"t = 15: máximo da energia em x - x0 = {x_mola[j_max] - x0:.2f}, velocidade {S[-1, j_max] * dx / e_mola[-1, j_max]:.3f}; "f"fração da energia em |x - x0| < ct/2: {e_mola[-1, dentro].sum() / e_mola[-1].sum():.3f}")
max |S| dx / (c e_mola) onde e_mola/dx > 1e-3 do máximo: 0.9968
t = 15: máximo da energia em x - x0 = 14.26, velocidade 0.985; fração da energia em |x - x0| < ct/2: 0.121
Na animação, a energia por unidade de comprimento de cada mola, \(e_{j+1/2}/\Delta x\), aparece junto com o fluxo dividido por \(c\); por Equação 14, \(S_{j+1/2}/c\) fica sempre entre \(-e_{j+1/2}/\Delta x\) e \(e_{j+1/2}/\Delta x\).
Figura 7: Animação do fluxo de energia na cadeia com \(N = 512\), \(c = \mu = 1\), a partir da gaussiana em repouso: energia por unidade de comprimento de cada mola, \(\pm e_{j+1/2}/\Delta x\) (verde, as duas curvas são simétricas), e fluxo \(S_{j+1/2}/c\) (azul), durante \(0 \le t \le 15\); as linhas tracejadas são as bordas do cone de luz. O fluxo fica entre as duas curvas verdes, \(|S_{j+1/2}|\Delta x/(c\,e_{j+1/2}) \le 0{,}9968\), e aponta para fora do centro nos dois lados: à direita de \(x_0\), onde \(e_{j+1/2}/\Delta x\) é maior que \(1\%\) do seu máximo, \(99{,}3\%\) do fluxo (em módulo) aponta para \(x\) crescente, e o restante volta para o centro perto de \(x_0\) e no interior do cone. A escala vertical acompanha o máximo de \(e_{j+1/2}/\Delta x\) em cada instante.
Um pacote que se move. Para obter um pacote que se move num único sentido, montamos a solução diretamente a partir dos modos, com o fator temporal \(e^{-i\omega_a t}\) e apenas números de onda positivos, como as ondas viajantes da Aula 1: \[
\psi^j(t) = \sum_{k_a > 0} c_a\, v_a^{\,j}\, e^{-i\omega_a t},
\qquad
c_a = e^{-(k_a - k_0)^2\sigma_{\rm p}^2/2}\, e^{-i k_a x_{\rm p}},
\qquad
h^j = \operatorname{Re}\psi^j .
\] Cada termo é solução, logo \(\vec h\) é solução. Os coeficientes \(c_a\) estão concentrados em torno de \(k_0\), com largura \(1/\sigma_{\rm p}\), e a fase \(e^{-ik_ax_{\rm p}}\) centra o pacote em \(x_{\rm p}\) em \(t = 0\). Usamos \(\mu = 1\), \(k_0 = 2\), \(\sigma_{\rm p} = 2\) e \(x_{\rm p} = 10\). O módulo \(|\psi^j|\) é a envoltória do pacote, e seu centro \(x_{\rm c}(t) \equiv \sum_j x_j|\psi^j|^2 \big/ \sum_j |\psi^j|^2\) se move com a média de \(\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k\) ponderada por \(|c_a|^2\).
velocidade do centro (ajuste linear): 0.8841
média de domega/dk ponderada por |c_a|^2: 0.8841
domega/dk em k0: 0.8915; velocidade de fase omega/k em k0: 1.1171
Figura 8: Pacote de ondas na cadeia com \(N = 512\), \(c = \mu = 1\), \(k_0 = 2\), \(\sigma_{\rm p} = 2\), a partir de \(x_{\rm p} = 10\). Esquerda: \(h^j = \operatorname{Re}\psi^j\) no plano \((x_j, t)\), com o cone de luz \(x = x_{\rm p} \pm ct\) (tracejado); as cristas se movem com a velocidade de fase \(\omega/k = 1{,}117\), maior que \(c\), e atravessam a envoltória. Direita: a envoltória \(|\psi^j|\) em \(t = 0\), \(10\) e \(20\) e o centro \(x_{\rm c}(t)\); o centro se move com velocidade \(0{,}8841\), igual à média de \(\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k\) ponderada por \(|c_a|^2\) (\(0{,}8841\)) e menor que \(c\); em \(k_0\), \(\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k = 0{,}8915\).
Na animação, a envoltória \(|\psi^j|\) e as cristas de \(h^j\) andam com velocidades diferentes: as cristas passam por dentro da envoltória, do fundo para a frente.
Figura 9: Animação do pacote de ondas da Figura 8, durante \(0 \le t \le 20\): \(h^j = \operatorname{Re}\psi^j\) (vermelho), a envoltória \(\pm|\psi^j|\) (cinza) e as bordas do cone de luz \(x = x_{\rm p} \pm ct\) (tracejadas). A linha preta cheia marca o centro \(x_{\rm c}(t)\), que anda com \(0{,}8841\); a linha pontilhada parte de uma crista em \(t = 0\) e anda com a velocidade de fase \(\omega/k = 1{,}117\) de \(k_0\), maior que \(c\).
A energia do pacote também se move com velocidade menor que \(c\). Como \(\Delta x\sum_j S_{j+1/2} = c^2 P_{\rm rede}\), a velocidade da energia do pacote inteiro, \(\Delta x\sum_j S_{j+1/2}/H\), é \(c^2P_{\rm rede}/H\):
m = rho * dxh_p = psi.realp_p = m * np.fft.ifft(c_a[None, :] * (-1j* w_pac[None, :]) * fase, axis=1).real / norma_pacH_p = (p_p**2).sum(axis=1) / (2* m) + (rho * c**2/ (2* dx) * (np.roll(h_p, -1, axis=1) - h_p) **2).sum(axis=1) \+ (rho * mu**2* dx /2* h_p**2).sum(axis=1)P_rede =-(p_p * (np.roll(h_p, -1, axis=1) - np.roll(h_p, 1, axis=1))).sum(axis=1) / (2* dx)pesos_E = w_pac**2* np.abs(c_a) **2print(f"c^2 P_rede / H: {c**2* P_rede[0] / H_p[0]:.4f} em t = 0, {c**2* P_rede[-1] / H_p[-1]:.4f} em t = 20; "f"variação relativa de P_rede: {np.abs(P_rede / P_rede[0] -1).max():.1e}")print(f"média de domega/dk ponderada pela energia de cada modo: {(pesos_E * v_grupo).sum() / pesos_E.sum():.4f}")
c^2 P_rede / H: 0.8932 em t = 0, 0.8932 em t = 20; variação relativa de P_rede: 4.4e-16
média de domega/dk ponderada pela energia de cada modo: 0.8932
A velocidade da energia, \(0{,}8932\), é a média de \(\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k\) ponderada pela energia de cada modo, e é constante no tempo. Ela difere da velocidade do centro de \(|\psi^j|^2\), \(0{,}8841\), porque as duas são médias com pesos diferentes: a energia de um modo é proporcional a \(\omega_a^2|c_a|^2\), e \(|\psi^j|^2\) pondera os modos por \(|c_a|^2\).
No limite contínuo, obtenha Equação 7, incluindo o coeficiente \(1/12\), e Equação 8.
(Essencial) Obtenha Equação 12 completando a conta de \(\dot e_j\), e mostre que \(\sum_j e_{j+1/2} = H\).
Mostre Equação 14. Para que configurações das partículas \(j\) e \(j + 1\) vale a igualdade?
Mostre que \(\dot P_{\rm rede} = 0\) e que \(\Delta x\sum_j S_{j+1/2} = c^2P_{\rm rede}\). No limite contínuo, obtenha Equação 15 e Equação 17 a partir das equações de Hamilton do campo.
Mostre que \(|\mathrm{d}\omega_{\Delta x}/\mathrm{d}k| \le c\cos(k\Delta x/2)\). No contínuo com \(\mu > 0\), mostre que \(\mathrm{d}\omega/\mathrm{d}k < c\) e \(\omega/k > c\), e que o produto das duas vale \(c^2\).
Mostre que \(\tilde h^a = \tilde\phi^a/\sqrt{\Delta x}\) e \(\tilde p^a = \sqrt{\Delta x}\,\tilde\Pi^a\), com as somas de Riemann no lugar das integrais.
Para \(\mu = 0\) e \(h^j = g(x_j - ct)\) com \(g\) variando pouco em \(\Delta x\), mostre que \(S_{j+1/2}\Delta x \approx c\,e_{j+1/2}\). No contínuo, mostre que \(\mathcal S = c\,\mathcal E\) e \(\mathcal P = \mathcal E/c\) para \(\phi = g(x - ct)\).
Repita a comparação entre a cadeia e o campo com \(\sigma = 0{,}25\). A partir de que \(N\) a razão entre erros sucessivos fica próxima de \(4\)? Relacione com o número de partículas por largura \(\sigma/\Delta x\).
2 Partículas a partir das soluções da cadeia
Na Aula 1 cada modo de Fourier da cadeia apareceu como um oscilador harmônico. Nesta seção construímos, a partir do espaço das soluções da cadeia, os estados de partículas. As soluções de frequência positiva formam o espaço de Hilbert de uma partícula; os produtos simetrizados desses espaços formam os espaços de duas, três, … partículas indistinguíveis; e os operadores de criação e aniquilação levam de um desses espaços ao seguinte. A cadeia quântica construída com esses operadores é a cadeia de \(N\) osciladores quânticos acoplados, com \([\hat h^j, \hat p_k] = i\hbar\,\delta^j{}_k\). Em toda a seção supomos \(K_0 > 0\); o caso \(K_0 = 0\) é discutido na Seção 2.2. Como uma solução da cadeia fica determinada por \(\vec h(t)\), com \(\vec p = m\dot{\vec h}\), descrevemos cada solução pelo vetor \(\vec h(t) \in \mathbb C^N\).
2.1 Soluções complexas e o produto simplético
As equações da cadeia são lineares e têm coeficientes reais: se \(\vec h(t)\) é uma solução complexa, sua parte real e sua parte imaginária também são soluções. Para duas soluções complexas \(\vec h_1\) e \(\vec h_2\), com \(\vec p_i = m\dot{\vec h}_i\), definimos \[
\langle \vec h_1, \vec h_2\rangle \equiv i\sum_{j=0}^{N-1}\left[\left(h_1^j\right)^* p_{2,j} - \left(p_{1,j}\right)^* h_2^j\right] = i\,\vec\chi_1^{\,\dagger}\,\Omega\,\vec\chi_2,
\tag{23}\] em que \(\vec\chi_i = (\vec h_i, \vec p_i)\) é o vetor do espaço de fase. É o produto simplético \(\Omega(\vec\chi_1, \vec\chi_2)\) da Aula 1, com o primeiro vetor conjugado e multiplicado por \(i\), na convenção do curso de Física Matemática. Ele é conservado pela mesma conta da Aula 1: com \(\dot{\vec\chi} = A\vec\chi\) e \(A\) real, \(\frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}\left(\vec\chi_1^{\,\dagger}\Omega\,\vec\chi_2\right) = \vec\chi_1^{\,\dagger}\left(A^{\mathsf T}\Omega + \Omega A\right)\vec\chi_2 = 0\).
Com \(\vec h_1 = \vec h_2 = \vec h\) real, a propriedade 3 dá \(\langle \vec h, \vec h\rangle = -\langle \vec h, \vec h\rangle = 0\): toda solução real tem “norma” nula. O produto não é positivo definido no espaço de todas as soluções, e ainda não é o produto de um espaço de Hilbert.
DicaNo limite contínuo: o produto de Klein–Gordon
Com \(h^j = \phi(x_j)\) e \(p_j = \Delta x\,\Pi(x_j)\), Equação 23 é uma soma de Riemann, e no limite \[
\langle\phi_1, \phi_2\rangle = i\int_0^L\left(\phi_1^*\,\Pi_2 - \Pi_1^*\,\phi_2\right)\mathrm{d}x
= i\rho\int_0^L\left(\phi_1^*\,\partial_t\phi_2 - \partial_t\phi_1^*\,\phi_2\right)\mathrm{d}x ,
\] o produto de Klein–Gordon. Sua conservação, com \(\partial_t^2\phi_i = c^2\phi_i'' - \mu^2\phi_i\), é \(\frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}\langle\phi_1, \phi_2\rangle = i\rho c^2\int_0^L\partial_x\left(\phi_1^*\phi_2' - \phi_1'^*\phi_2\right)\mathrm{d}x = 0\).
2.2 Modos de frequência positiva
Os modos de frequência positiva da cadeia são as soluções \[
f_a^{\,j}(t) \equiv \frac{v_a^{\,j}\,e^{-i\omega_a t}}{\sqrt{2m\,\omega_a}},
\qquad a = 0, 1, \dots, N - 1 ,
\tag{24}\] cada uma o modo \(a\) da Aula 1 com dependência temporal \(e^{-i\omega_a t}\), \(\omega_a > 0\). Com \(\vec p = m\dot{\vec f}_a = -im\omega_a \vec f_a\) e \(\sum_j (v_a^{\,j})^* v_b^{\,j} = \delta_{ab}\), \[
\langle \vec f_a, \vec f_b\rangle
= i\,m\left(-i\omega_b - i\omega_a\right)\sum_j \left(f_a^{\,j}\right)^* f_b^{\,j}
= m\left(\omega_a + \omega_b\right)\frac{e^{i(\omega_a - \omega_b)t}}{2m\sqrt{\omega_a\omega_b}}\,\delta_{ab}
= \delta_{ab} .
\] Da mesma forma, com \(\dot{\vec f}_b^{\,*} = i\omega_b \vec f_b^{\,*}\) e \(\sum_j (v_a^{\,j})^*(v_b^{\,j})^* = \delta_{a,-b}\), \(\langle \vec f_a, \vec f_b^{\,*}\rangle\) é proporcional a \((\omega_b - \omega_a)\,\delta_{a,-b}\), que é nulo porque \(\omega_{-a} = \omega_a\). Com a propriedade 3, \[
\langle \vec f_a, \vec f_b\rangle = \delta_{ab},
\qquad
\langle \vec f_a^{\,*}, \vec f_b^{\,*}\rangle = -\delta_{ab},
\qquad
\langle \vec f_a, \vec f_b^{\,*}\rangle = 0 .
\tag{25}\]
Toda solução real se escreve como \[
\vec h = \sum_a\left(\alpha_a\, \vec f_a + \alpha_a^*\, \vec f_a^{\,*}\right),
\qquad
\alpha_a = \langle \vec f_a, \vec h\rangle = \frac{m\,\omega_a\,\tilde h^a + i\,\tilde p^a}{\sqrt{2m\,\omega_a}},
\tag{26}\] como se vê aplicando \(\langle \vec f_b, \cdot\,\rangle\) à soma e usando Equação 25; a última forma é \(\langle \vec f_a, \vec h\rangle\) calculado em \(t = 0\), com \(\tilde h^a\) e \(\tilde p^a\) em \(t = 0\). Os \(\alpha_a\) não dependem do tempo, porque o produto é conservado. São as variáveis de criação e aniquilação clássicas da cadeia. Três propriedades:
Energia. Pela Hamiltoniana dos modos da Aula 1, \(H = \sum_a\left[|\tilde p^a|^2/(2m) + m\omega_a^2|\tilde h^a|^2/2\right]\). Em \(\sum_a\omega_a|\alpha_a|^2\), os termos cruzados \(i\omega_a\left[(\tilde h^a)^*\tilde p^a - \tilde h^a(\tilde p^a)^*\right]/2\) dos índices \(a\) e \(-a\) se cancelam, porque para \(\vec h\) real \(\tilde h^{-a} = (\tilde h^a)^*\) e \(\tilde p^{-a} = (\tilde p^a)^*\). Sobra \[
H = \sum_a \omega_a\,|\alpha_a|^2 .
\tag{27}\]
Momento da cadeia. As componentes de Fourier de \((h^{j+1} - h^{j-1})/(2\Delta x)\) são \(i\kappa_a\tilde h^a\), com \(\kappa_a = \sin(k_a\Delta x)/\Delta x\), pois \((e^{ik_a\Delta x} - e^{-ik_a\Delta x})/(2\Delta x) = i\kappa_a\). Então \(P_{\rm rede} = -i\sum_a\kappa_a(\tilde p^a)^*\tilde h^a\), e em \(\sum_a\kappa_a|\alpha_a|^2\) agora os termos com \(|\tilde h^a|^2\) e \(|\tilde p^a|^2\) se cancelam, porque \(\kappa_{-a} = -\kappa_a\): \[
P_{\rm rede} = \sum_a \kappa_a\,|\alpha_a|^2 .
\tag{28}\]
A soma de frequência positiva em Equação 26, \(\vec\psi_+ \equiv \sum_a\alpha_a \vec f_a\), é uma solução complexa com \(\vec h = \vec\psi_+ + \vec\psi_+^{\,*} = 2\,\mathrm{Re}\,\vec\psi_+\), que contém toda a informação de \(\vec h\).
O caso \(K_0 = 0\). O modo \(a = 0\) tem então frequência \(\omega_a = 0\), e Equação 24 não está definida. É o modo zero da Aula 1: a altura média se move como uma partícula livre, não como um oscilador, e não tem um \(\alpha_0\). A mola de constante \(K_0 > 0\) torna também esse modo um oscilador.
A escolha de frequência positiva. A separação entre \(\vec f_a\) e \(\vec f_a^{\,*}\) usa a dependência temporal \(e^{\mp i\omega_a t}\), que existe porque as equações não dependem do tempo. Outras separações do espaço das soluções em duas metades com as propriedades Equação 25 são possíveis, e levam a outros estados de vácuo; essa questão é discutida no curso de Física Matemática.
N, mu =64, 1.0dx = L / Nm = rho * dxx = np.arange(N) * dxk = numeros_de_onda(N, L)w = omega_cadeia(k, dx, mu)kappa = np.sin(k * dx) / dxV = np.exp(1j* np.outer(x, k)) / np.sqrt(N) # coluna a = v_adef modos(t):"""f_a^j(t), uma coluna por modo, e p = m df/dt.""" f = V * np.exp(-1j* w * t) / np.sqrt(2* m * w)return f, -1j* m * w * fdef produto(h1, p1, h2, p2):"""<h1, h2> = i sum_j (h1^* p2 - p1^* h2), entre todas as colunas."""return1j* (h1.conj().T @ p2 - p1.conj().T @ h2)f, p_f = modos(3.7)I = np.eye(N)print(f"max |<f_a, f_b> - delta| = {np.abs(produto(f, p_f, f, p_f) - I).max():.1e}")print(f"max |<f*_a, f*_b> + delta| = {np.abs(produto(f.conj(), p_f.conj(), f.conj(), p_f.conj()) + I).max():.1e}")print(f"max |<f_a, f*_b>| = {np.abs(produto(f, p_f, f.conj(), p_f.conj())).max():.1e}")rng = np.random.default_rng(3)h0, p0 = rng.normal(size=N), rng.normal(size=N)f, p_f = modos(0.0)alfa = produto(f, p_f, h0[:, None], p0[:, None])[:, 0]ht, pt = V.conj().T @ h0, V.conj().T @ p0H_dir = p0 @ p0 / (2* m) +0.5* h0 @ ((rho * c**2/ dx) * (2* h0 - np.roll(h0, -1) - np.roll(h0, 1)) + rho * mu**2* dx * h0)P_dir =-(p0 * (np.roll(h0, -1) - np.roll(h0, 1))).sum() / (2* dx)print(f"max |<f_a, h> - (m w h~ + i p~)/sqrt(2 m w)| = {np.abs(alfa - (m * w * ht +1j* pt) / np.sqrt(2* m * w)).max():.1e}")print(f"max |h - sum(alfa f + alfa* f*)| = {np.abs((f @ alfa + f.conj() @ alfa.conj()).real - h0).max():.1e}")print(f"H = {H_dir:.10f}; sum omega |alfa|^2 = {np.sum(w * np.abs(alfa) **2):.10f}")print(f"P_rede = {P_dir:.10f}; sum kappa |alfa|^2 = {np.sum(kappa * np.abs(alfa) **2):.10f}")
max |<f_a, f_b> - delta| = 6.3e-15
max |<f*_a, f*_b> + delta| = 6.3e-15
max |<f_a, f*_b>| = 1.5e-15
max |<f_a, h> - (m w h~ + i p~)/sqrt(2 m w)| = 6.8e-16
max |h - sum(alfa f + alfa* f*)| = 1.7e-14
H = 217.9986583901; sum omega |alfa|^2 = 217.9986583901
P_rede = -4.1451103789; sum kappa |alfa|^2 = -4.1451103789
DicaNo limite contínuo: os modos do campo
Com Equação 21 e \(m = \rho\,\Delta x\), \(v_a^{\,j}/\sqrt{2m\omega_a} = u_a(x_j)/\sqrt{2\rho\,\omega_a}\): os modos da cadeia são, nos pontos \(x_j\), as funções \[
f_a(t, x) \equiv \frac{u_a(x)\,e^{-i\omega(k_a)t}}{\sqrt{2\rho\,\omega(k_a)}},
\] com \(\omega_a\) substituída por \(\omega(k_a)\) no limite. Da mesma forma, \(\alpha_a = (\rho\,\omega(k_a)\,\tilde\phi^a + i\,\tilde\Pi^a)/\sqrt{2\rho\,\omega(k_a)}\), \(H = \sum_{a \in \mathbb Z}\omega(k_a)|\alpha_a|^2\), \(\int_0^L\mathcal P\,\mathrm{d}x = \sum_{a \in \mathbb Z}k_a|\alpha_a|^2\) (pois \(\kappa_a \to k_a\)), e \(\{\alpha_a, \alpha_b^*\} = -i\delta_{ab}\) segue de Equação 11. O papel de \(K_0 > 0\) é o de \(\mu > 0\): com \(\mu = 0\) o modo \(k = 0\) do campo não é um oscilador.
2.3 O espaço de uma partícula
As combinações lineares dos modos de frequência positiva, \[
\mathcal H_1 \equiv \left\{\vec\psi = \sum_{a}\psi^a\, \vec f_a \;:\; \psi^a \in \mathbb C\right\},
\] são soluções complexas da cadeia. Em \(\mathcal H_1\), por Equação 25, \[
\langle\vec\psi_1, \vec\psi_2\rangle = \sum_a (\psi_1^a)^*\psi_2^a,
\qquad
\langle\vec\psi, \vec\psi\rangle = \sum_a |\psi^a|^2 > 0 \quad\text{para } \vec\psi \neq 0 :
\] restrito a \(\mathcal H_1\), o produto Equação 23 é positivo definido, e \(\mathcal H_1\) é um espaço de Hilbert de dimensão \(N\), com base ortonormal \(\{\vec f_a\}\). É o espaço de estados de uma partícula: um vetor \(\vec\psi \in \mathcal H_1\) com \(\langle\vec\psi, \vec\psi\rangle = 1\) descreve uma partícula, \(\vec f_a\) é a partícula no modo \(a\), de número de onda \(k_a\), e \(|\psi^a|^2\) é a probabilidade de encontrá-la no modo \(a\).
A evolução temporal em \(\mathcal H_1\) é a de uma equação de Schrödinger. Como \(\dot{\vec f}_a = -i\omega_a \vec f_a\), e \(\omega_a^2\) e \(\vec v_a\) são os autovalores e autovetores de \((KD + K_0 I)/m\), \[
i\,\frac{\mathrm{d}\vec\psi}{\mathrm{d}t} = \sum_a \omega_a\,\psi^a \vec f_a = \sqrt{\frac{KD + K_0 I}{m}}\;\vec\psi ,
\tag{30}\] em que a raiz quadrada é a matriz positiva com os mesmos autovetores e autovalores \(\omega_a\). Com a constante de Planck reduzida \(\hbar\), a energia de uma partícula no modo \(a\) é \(\hbar\omega_a\), e seu momento da cadeia, por Equação 28, é \(\hbar\kappa_a\). O pacote \(\psi^j\) da Seção 1.7 é um vetor de \(\mathcal H_1\).
max |i dpsi/dt - sqrt((KD + K0 I)/m) psi| = 3.9e-10 (com max |psi| = 1.85; o erro é o da derivada numérica)
A norma de \(\mathcal H_1\) não é \(\sum_j|\psi^j|^2\): como \(|f_a^{\,j}|^2 = |v_a^{\,j}|^2/(2m\omega_a)\), essa soma pondera cada modo por \(1/(2m\omega_a)\). Por isso \(|\psi^j|^2\) não é a probabilidade de encontrar a partícula na posição \(x_j\); para um pacote com números de onda próximos de \(k_0\) ela é aproximadamente proporcional a uma, e mostra onde a partícula está.
DicaNo limite contínuo: uma partícula relativística
No limite, \(\mathcal H_1\) passa a ter dimensão infinita, com base \(\{f_a, a \in \mathbb Z\}\) e \(\sum_a|\psi^a|^2 < \infty\). A raiz quadrada da matriz \((KD + K_0 I)/m\) multiplica cada \(\vec v_a\) por \(\omega_a\), e no limite é o operador que multiplica cada \(u_a\) por \(\sqrt{\mu^2 + c^2k_a^2}\): \[
i\,\frac{\partial\psi}{\partial t} = \sqrt{\mu^2 - c^2\,\frac{\partial^2}{\partial x^2}}\;\psi .
\] Uma partícula no modo \(a\) tem energia \(\hbar\omega(k_a)\) e momento \(\hbar k_a\), com \((\hbar\omega)^2 = (\hbar\mu)^2 + c^2(\hbar k)^2\): a relação entre energia e momento de uma partícula relativística de energia de repouso \(\hbar\mu\).
2.4 Duas ou mais partículas: o espaço de Fock
Um estado de duas partículas é descrito por coeficientes \(\Psi^{ab}\), um para cada par de modos: \[
\Psi = \sum_{a, b}\Psi^{ab}\, \vec f_a\otimes \vec f_b,
\qquad
\Psi^{j_1j_2}(t) \equiv \sum_{a, b}\Psi^{ab}\, f_a^{\,j_1}(t)\, f_b^{\,j_2}(t),
\qquad
\langle\Psi, \Psi'\rangle \equiv \sum_{a, b}(\Psi^{ab})^*\,\Psi'^{ab} .
\] Nas posições, um estado de duas partículas atribui uma amplitude \(\Psi^{j_1j_2}\) a cada par de partículas \((j_1, j_2)\) da cadeia, e cada índice evolui como um estado de \(\mathcal H_1\). As partículas são indistinguíveis: trocar os rótulos \(1\) e \(2\) dá o mesmo estado, \[
\Psi^{ab} = \Psi^{ba},
\qquad\text{ou seja,}\qquad
\Psi^{j_1j_2}(t) = \Psi^{j_2j_1}(t) .
\] O espaço de duas partículas \(\mathcal H_2\) é o dos \(\Psi\) simétricos: a parte simétrica do produto tensorial \(\mathcal H_1\otimes\mathcal H_1\). A razão de ser a parte simétrica, e não a antissimétrica, aparece na Seção 2.5: os operadores de criação comutam entre si, porque \(\{\alpha_a^*, \alpha_b^*\} = 0\). (A parte antissimétrica descreve férmions, que não vêm de osciladores como estes.)
Por exemplo, para dois pacotes ortonormais \(\vec\psi_{\rm E}\) e \(\vec\psi_{\rm D}\) de \(\mathcal H_1\), o estado com uma partícula em cada um é \[
\Psi = \frac{\vec\psi_{\rm E}\otimes\vec\psi_{\rm D} + \vec\psi_{\rm D}\otimes\vec\psi_{\rm E}}{\sqrt 2},
\qquad
\langle\Psi, \Psi\rangle = 1 .
\] A Figura 10 mostra esse estado para dois pacotes como o da Seção 1.7, um vindo da esquerda e outro da direita. Quando os pacotes se cruzam, as duas parcelas de \(\Psi\) se sobrepõem; com envoltórias quase iguais perto do centro e fatores \(e^{\pm ik_0x_j}\), \(\Psi^{j_1j_2} \propto e^{ik_0(x_{j_1} - x_{j_2})} + e^{-ik_0(x_{j_1} - x_{j_2})} = 2\cos\left(k_0(x_{j_1} - x_{j_2})\right)\), e \(|\Psi^{j_1j_2}|^2\) tem franjas ao longo das retas \(x_{j_1} - x_{j_2} = \text{constante}\): a interferência entre as duas ordens possíveis das mesmas duas partículas.
Figura 10: Estado de duas partículas indistinguíveis \(\Psi = (\psi_{\rm E}\otimes\psi_{\rm D} + \psi_{\rm D}\otimes\psi_{\rm E})/\sqrt2\) na cadeia com \(N = 256\) (\(c = \mu = 1\)), com \(\psi_{\rm E}\) um pacote com \(k_0 = 2\) a partir de \(x = 10\) e \(\psi_{\rm D}\) um pacote com \(k_0 = -2\) a partir de \(x = 30\) (\(\sigma_{\rm p} = 2\)). Os painéis mostram \(|\Psi^{j_1j_2}(t)|^2\) antes, durante e depois do cruzamento dos pacotes, em \(t = 11{,}4\); a diagonal tracejada é \(j_1 = j_2\). A amplitude é simétrica pela troca \(j_1 \leftrightarrow j_2\) (diferença máxima \(3\times 10^{-17}\)): os dois picos, em \((10, 30)\) e \((30, 10)\) em \(t = 0\), representam o mesmo estado, e não há como dizer qual partícula é qual. No cruzamento, \(\Psi^{j_1j_2}\) é proporcional a \(\cos(k_0(x_{j_1} - x_{j_2}))\) perto do centro, e \(|\Psi^{j_1j_2}|^2\) mostra franjas paralelas à diagonal.
print(f"<psi_E, psi_D> = {np.vdot(psi_E, psi_D):.1e}; t de cruzamento = {t_cruz:.2f}")for tt in [0.0, t_cruz, 2* t_cruz]: pE, pD = estado_H1(psi_E, tt), estado_H1(psi_D, tt) Psi = (np.outer(pE, pD) + np.outer(pD, pE)) / np.sqrt(2) i, j = np.unravel_index(np.argmax(np.abs(Psi) **2), Psi.shape)print(f"t = {tt:5.2f}: max |Psi^(j1 j2) - Psi^(j2 j1)| = {np.abs(Psi - Psi.T).max():.1e}, "f"máximo de |Psi|^2 em (x_j1, x_j2) = ({x2[i]:.1f}, {x2[j]:.1f})")
<psi_E, psi_D> = 0.0e+00+0.0e+00j; t de cruzamento = 11.43
t = 0.00: max |Psi^(j1 j2) - Psi^(j2 j1)| = 6.9e-18, máximo de |Psi|^2 em (x_j1, x_j2) = (10.0, 30.0)
t = 11.43: max |Psi^(j1 j2) - Psi^(j2 j1)| = 2.1e-17, máximo de |Psi|^2 em (x_j1, x_j2) = (20.0, 20.0)
t = 22.85: max |Psi^(j1 j2) - Psi^(j2 j1)| = 6.9e-18, máximo de |Psi|^2 em (x_j1, x_j2) = (10.2, 29.8)
A animação mostra o estado de duas partículas durante todo o cruzamento.
Figura 11: Animação da Figura 10: \(|\Psi^{j_1j_2}(t)|^2\) para o estado simetrizado de dois pacotes na cadeia com \(N = 256\), durante \(0 \le t \le 22{,}9\), duas vezes o tempo de cruzamento. Os dois picos, um de cada lado da diagonal \(j_1 = j_2\) (tracejada), se aproximam, se sobrepõem perto de \((20, 20)\) com as franjas de interferência paralelas à diagonal, e se separam. A escala de cores é a mesma em todos os quadros e proporcional a \(|\Psi^{j_1j_2}|\), para que os picos fora do cruzamento, onde \(|\Psi|^2\) é menor, fiquem visíveis.
Da mesma forma, um estado de \(n\) partículas tem coeficientes \(\Psi^{a_1 a_2\cdots a_n}\) simétricos pela troca de quaisquer dois índices, e esses estados formam o espaço \(\mathcal H_n\). O espaço \(\mathcal H_0\) tem um único estado normalizado, o vácuo\(|0\rangle\), sem partículas. O espaço de Fock reúne todos os números de partículas: \[
\mathcal F \equiv \mathcal H_0 \oplus \mathcal H_1 \oplus \mathcal H_2 \oplus \cdots
\] Um estado de \(\mathcal H_n\) simétrico fica determinado por quantas partículas há em cada modo: os números de ocupação\(n_a \ge 0\), com \(\sum_a n_a = n\). Na cadeia, com \(N\) modos, \(\mathcal H_n\) tem dimensão finita \(\binom{n + N - 1}{n}\); para \(N = 15\), as dimensões de \(\mathcal H_0, \dots, \mathcal H_4\) são \(1\), \(15\), \(120\), \(680\) e \(3060\). Para um único modo, cada \(\mathcal H_n\) tem dimensão \(1\), e o espaço de Fock é a sequência de estados \(|0\rangle, |1\rangle, |2\rangle, \dots\), os níveis de um oscilador harmônico quântico: o número de partículas no modo \(a\) é o nível de excitação do oscilador desse modo.
DicaNo limite contínuo: funções de duas posições
No limite, \(\Psi^{j_1j_2}\) passa a ser uma função de duas posições, \(\Psi(t; x_1, x_2) = \sum_{a, b}\Psi^{ab}\,f_a(t, x_1)\,f_b(t, x_2)\), simétrica pela troca \(x_1 \leftrightarrow x_2\), e cada \(\mathcal H_n\) com \(n \ge 1\) passa a ter dimensão infinita.
2.5 Operadores de criação e aniquilação
O operador de criação \(a^\dagger(\vec\psi_2)\), com \(\vec\psi_2 \in \mathcal H_1\), acrescenta uma partícula no estado \(\vec\psi_2\), levando \(\mathcal H_n\) em \(\mathcal H_{n+1}\); o operador de aniquilação \(a(\vec\psi_1)\) retira uma partícula no estado \(\vec\psi_1\), levando \(\mathcal H_n\) em \(\mathcal H_{n-1}\): \[
\left(a^\dagger(\vec\psi_2)\,\Psi\right)^{a_1\cdots a_{n+1}} \equiv \frac{1}{\sqrt{n+1}}\sum_{i=1}^{n+1}\psi_2^{a_i}\,\Psi^{a_1\cdots\widehat{a_i}\cdots a_{n+1}},
\qquad
\left(a(\vec\psi_1)\,\Psi\right)^{a_2\cdots a_n} \equiv \sqrt n\sum_{a_1}(\psi_1^{a_1})^*\,\Psi^{a_1 a_2\cdots a_n},
\tag{31}\] em que \(\widehat{a_i}\) indica o índice omitido, e \(a(\vec\psi_1)|0\rangle = 0\). A primeira fórmula simetriza \(\vec\psi_2\otimes\Psi\); a segunda é o produto de \(\vec\psi_1\) com um dos índices de \(\Psi\) (todos dão o mesmo resultado, por simetria). Os fatores \(\sqrt{n+1}\) e \(\sqrt n\) fazem valer, em todo \(\mathcal H_n\), \[
\left[a(\vec\psi_1), a^\dagger(\vec\psi_2)\right] = \langle\vec\psi_1, \vec\psi_2\rangle,
\qquad
\left[a^\dagger(\vec\psi_1), a^\dagger(\vec\psi_2)\right] = 0,
\qquad
\left[a(\vec\psi_1), a(\vec\psi_2)\right] = 0 .
\tag{32}\] A segunda relação é a simetria dos estados: criar uma partícula em \(\vec\psi_1\) e outra em \(\vec\psi_2\), nas duas ordens, dá o mesmo estado. Com os modos, \(a_a \equiv a(\vec f_a)\) e \(a_a^\dagger \equiv a^\dagger(\vec f_a)\), \[
\left[a_a, a_b^\dagger\right] = \delta_{ab},
\qquad
a^\dagger(\vec\psi_2) = \sum_a \psi_2^a\,a_a^\dagger,
\qquad
a(\vec\psi_1) = \sum_a (\psi_1^a)^*\,a_a .
\] O operador \(\hat n_a \equiv a_a^\dagger a_a\) conta as partículas no modo \(a\), os estados \(\prod_a (a_a^\dagger)^{n_a}/\sqrt{n_a!}\,|0\rangle\) formam uma base ortonormal de \(\mathcal F\), e para um único modo \(a^\dagger|n\rangle = \sqrt{n+1}\,|n+1\rangle\) e \(a|n\rangle = \sqrt n\,|n-1\rangle\). A energia e o momento da cadeia de um estado com números de ocupação \(n_a\) são as somas das energias e dos momentos das partículas: \[
\hat H = \sum_a \hbar\,\omega_a\,\hat n_a,
\qquad
\hat P_{\rm rede} = \sum_a \hbar\,\kappa_a\,\hat n_a
\tag{33}\] (Figura 12).
A implementação abaixo representa um estado de \(\mathcal H_n\) pelo tensor simétrico \(\Psi^{a_1\cdots a_n}\) e confere Equação 32 com \(3\) modos e vetores aleatórios.
def simetriza(T): n = T.ndimif n <=1:return Treturnsum(np.transpose(T, p) for p in itertools.permutations(range(n))) / math.factorial(n)def cria(chi, T):"""a^dagger(chi): tensor simétrico de ordem n -> ordem n + 1.""" n = T.ndimreturn math.sqrt(n +1) * simetriza(np.multiply.outer(chi, T))def aniquila(psi, T):"""a(psi): tensor simétrico de ordem n -> ordem n - 1 (zero no vácuo).""" n = T.ndimif n ==0:return np.zeros(())return math.sqrt(n) * np.tensordot(psi.conj(), T, axes=(0, 0))d =3rng = np.random.default_rng(0)psi = rng.normal(size=d) +1j* rng.normal(size=d)chi = rng.normal(size=d) +1j* rng.normal(size=d)for n inrange(4): T = np.array(1.0+0.5j) if n ==0else simetriza(rng.normal(size=(d,) * n) +1j* rng.normal(size=(d,) * n)) comut = aniquila(psi, cria(chi, T)) - (cria(chi, aniquila(psi, T)) if n >0else0)print(f"n = {n}: max |[a(psi), a+(chi)] T - <psi,chi> T| = {np.abs(comut - np.vdot(psi, chi) * T).max():.1e}, "f"max |[a+(psi), a+(chi)] T| = {np.abs(cria(psi, cria(chi, T)) - cria(chi, cria(psi, T))).max():.1e}")estado = np.array(1.0)for _ inrange(3): estado = cria(np.eye(d)[0], estado)print(f"(a_0^dagger)^3 |0>: norma ao quadrado = {np.vdot(estado, estado).real:.6f} (3! = 6)")
n = 0: max |[a(psi), a+(chi)] T - <psi,chi> T| = 7.9e-17, max |[a+(psi), a+(chi)] T| = 2.2e-16
n = 1: max |[a(psi), a+(chi)] T - <psi,chi> T| = 4.6e-16, max |[a+(psi), a+(chi)] T| = 4.4e-16
n = 2: max |[a(psi), a+(chi)] T - <psi,chi> T| = 1.7e-15, max |[a+(psi), a+(chi)] T| = 1.3e-15
n = 3: max |[a(psi), a+(chi)] T - <psi,chi> T| = 1.5e-15, max |[a+(psi), a+(chi)] T| = 1.9e-14
(a_0^dagger)^3 |0>: norma ao quadrado = 6.000000 (3! = 6)
Figura 12: Energia e momento da cadeia dos estados de uma partícula, \((\hbar\kappa_a, \hbar\omega_a)\) (pontos azuis), e de duas partículas, \((\hbar(\kappa_a + \kappa_b), \hbar(\omega_a + \omega_b))\) (pontos laranja), na cadeia com \(N = 512\), \(c = \mu = \hbar = 1\), \(L = 40\) e \(|a|, |b| \le 10\); nesses modos \(\kappa_a\) difere de \(k_a\) por no máximo \(0{,}25\%\). A curva azul é \(\omega(k)\). Os estados de uma partícula têm energia de no mínimo \(\hbar\mu = 1\); os de duas partículas, de no mínimo \(2\hbar\mu = 2\) (pontilhada), e para cada momento total formam uma faixa de energias.
DicaNo limite contínuo: energia e momento das partículas
No limite, \(\kappa_a \to k_a\) e \(\hat P_{\rm rede} \to \hat P_{\rm campo} = \sum_{a \in \mathbb Z}\hbar\,k_a\,\hat n_a\), o operador do momento do campo \(\int\mathcal P\,\mathrm{d}x\), e \(\hat H = \sum_a\hbar\,\omega(k_a)\,\hat n_a\).
2.6 A cadeia quântica
Compare Equação 29 com Equação 32: \[
\{\alpha_a, \alpha_b^*\} = -i\,\delta_{ab},
\qquad
\left[a_a, a_b^\dagger\right] = \delta_{ab} .
\] A regra de quantização de Dirac substitui cada parêntese de Poisson \(\{F, G\}\) pelo comutador \([\hat F, \hat G]/(i\hbar)\). Com \(\alpha_a \to \sqrt\hbar\,a_a\) e \(\alpha_a^* \to \sqrt\hbar\,a_a^\dagger\), o comutador é \(\hbar\,\delta_{ab} = i\hbar\left(-i\,\delta_{ab}\right)\): os operadores de criação e aniquilação do espaço de Fock são a quantização das variáveis clássicas \(\alpha_a\). Fazendo a mesma substituição em Equação 26 obtemos as alturas e os momentos como operadores, \[
\hat h^j(t) = \sqrt\hbar\sum_a\left(a_a\, f_a^{\,j}(t) + a_a^\dagger\, \left(f_a^{\,j}(t)\right)^*\right),
\qquad
\hat p_j = m\,\frac{\mathrm{d}\hat h^j}{\mathrm{d}t} .
\tag{34}\] Seu comutador, com Equação 32 e \(m\dot f_a^{\,j} = -im\omega_a f_a^{\,j}\), é \[
\left[\hat h^j, \hat p_k\right]
= \hbar\sum_a\left(f_a^{\,j}\left(im\omega_a\right)\left(f_a^{\,k}\right)^* + \left(f_a^{\,j}\right)^*\left(im\omega_a\right) f_a^{\,k}\right)
= \frac{i\hbar}{2}\sum_a\left(v_a^{\,j}\left(v_a^{\,k}\right)^* + \left(v_a^{\,j}\right)^* v_a^{\,k}\right),
\] e, pela completeza Equação 20, cada uma das duas somas é \(\delta^{jk}\): \[
\left[\hat h^j, \hat p_k\right] = i\hbar\,\delta^j{}_k .
\tag{35}\] Esses são os comutadores de \(N\) osciladores quânticos. O espaço de Fock construído a partir das soluções clássicas é o espaço de estados da cadeia de \(N\) osciladores quânticos acoplados, e uma partícula é um quantum de um modo normal.
Na cadeia podemos conferir tudo com matrizes. Representamos o espaço de Fock de \(N = 3\) modos pela base de números de ocupação, com no máximo \(6\) partículas por modo, e construímos \(\hat h^j\) e \(\hat p_j\) por Equação 34. Nos estados com poucas partículas, onde o corte em \(6\) não interfere, conferimos Equação 35 e escrevemos a Hamiltoniana da cadeia na forma original \(\hat H_{\rm cadeia} = \sum_j\hat p_j^2/(2m) + \tfrac12\sum_{j,k}\hat h^j(KD + K_0 I)_{jk}\hat h^k\):
hbar =1.0N_q, mu_q =3, 1.0dx_q = L / N_qm_q = rho * dx_qk_q = numeros_de_onda(N_q, L)w_q = omega_cadeia(k_q, dx_q, mu_q)V_q = np.exp(1j* np.outer(np.arange(N_q) * dx_q, k_q)) / np.sqrt(N_q)M_q = rho * c**2/ dx_q * (2* np.eye(N_q) - np.roll(np.eye(N_q), 1, axis=1) - np.roll(np.eye(N_q), -1, axis=1)) \+ rho * mu_q**2* dx_q * np.eye(N_q)n_corte =7a_1 = np.diag(np.sqrt(np.arange(1, n_corte)), 1) # a|n> = sqrt(n)|n-1>, n < 7def no_modo(op1, a):"""Operador op1 agindo no modo a, identidade nos outros.""" fatores = [np.eye(n_corte)] * N_q fatores[a] = op1 out = fatores[0]for F in fatores[1:]: out = np.kron(out, F)return outA = [no_modo(a_1, a) for a inrange(N_q)]f0 = V_q / np.sqrt(2* m_q * w_q) # f_a^j(0)h_op = [np.sqrt(hbar) *sum(A[a] * f0[j, a] + A[a].conj().T * np.conj(f0[j, a]) for a inrange(N_q)) for j inrange(N_q)]p_op = [np.sqrt(hbar) *sum(A[a] * (-1j* m_q * w_q[a] * f0[j, a]) + A[a].conj().T * np.conj(-1j* m_q * w_q[a] * f0[j, a])for a inrange(N_q)) for j inrange(N_q)]ocup = np.array(np.meshgrid(*[np.arange(n_corte)] * N_q, indexing="ij")).reshape(N_q, -1).Tbaixos = np.where(ocup.sum(axis=1) <= n_corte -3)[0]erro_comut =max(np.abs((h_op[j] @ p_op[k] - p_op[k] @ h_op[j])[np.ix_(baixos, baixos)]-1j* hbar * (j == k) * np.eye(len(baixos))).max() for j inrange(N_q) for k inrange(N_q))H_cadeia =sum(P @ P for P in p_op) / (2* m_q) +0.5*sum(M_q[j, k] * h_op[j] @ h_op[k] for j inrange(N_q) for k inrange(N_q))H_modos =sum(hbar * w_q[a] * (A[a].conj().T @ A[a] +0.5* np.eye(n_corte**N_q)) for a inrange(N_q))print(f"max |[h_j, p_k] - i hbar delta_jk| = {erro_comut:.1e}")print(f"max |H_cadeia - sum_a hbar omega_a (n_a + 1/2)| = {np.abs((H_cadeia - H_modos)[np.ix_(baixos, baixos)]).max():.1e}")print(f"energia do vácuo sum_a hbar omega_a / 2 = {hbar * w_q.sum() /2:.4f}")
max |[h_j, p_k] - i hbar delta_jk| = 8.9e-16
max |H_cadeia - sum_a hbar omega_a (n_a + 1/2)| = 3.6e-15
energia do vácuo sum_a hbar omega_a / 2 = 1.5084
A Hamiltoniana da cadeia quântica é \(\hat H_{\rm cadeia} = \sum_a\hbar\,\omega_a\left(\hat n_a + \tfrac12\right)\): além das energias das partículas, Equação 33, ela contém a energia do vácuo \(E_{\rm vácuo} \equiv \sum_a\hbar\,\omega_a/2\), que vem da ordem dos operadores (classicamente, \(\alpha_a^*\alpha_a = \alpha_a\alpha_a^*\); quanticamente, \(a_aa_a^\dagger = a_a^\dagger a_a + 1\)). Na cadeia ela é finita, e somar uma constante à energia não muda a dinâmica; Equação 33 é \(\hat H_{\rm cadeia} - E_{\rm vácuo}\). Ela cresce com o número de partículas da cadeia no mesmo anel:
for N_v in [16, 64, 256, 1024]: w_v = omega_cadeia(numeros_de_onda(N_v, L), L / N_v, 1.0)print(f"N = {N_v:5d}: E_vácuo = sum hbar omega_a / 2 = {hbar * w_v.sum() /2:.4e}")
N = 16: E_vácuo = sum hbar omega_a / 2 = 9.1571e+00
N = 64: E_vácuo = sum hbar omega_a / 2 = 7.4829e+01
N = 256: E_vácuo = sum hbar omega_a / 2 = 1.0571e+03
N = 1024: E_vácuo = sum hbar omega_a / 2 = 1.6707e+04
DicaNo limite contínuo: o campo quântico
No limite, Equação 34 é o campo quântico \[
\hat\phi(t, x) = \sqrt\hbar\sum_{a\in\mathbb Z}\left(a_a\, f_a(t, x) + a_a^\dagger\, f_a^*(t, x)\right),
\qquad
\hat\Pi = \rho\,\partial_t\hat\phi ,
\] e Equação 35, com \(\hat p_k = \Delta x\,\hat\Pi(x_k)\) e \(\delta^j{}_k/\Delta x \to \delta(x - y)\), é \[
\left[\hat\phi(t, x), \hat\Pi(t, y)\right] = i\hbar\,\delta(x - y),
\] a quantização de Equação 11. A energia do vácuo cresce sem limite: com \(L\) fixo, as razões entre valores sucessivos da tabela acima, em que \(N\) é multiplicado por \(4\), são \(8{,}2\), \(14{,}1\) e \(15{,}8\), e se aproximam de \(16\), pois há \(N\) modos e as frequências chegam a \(2c/\Delta x\). Por isso, no campo, a energia é medida a partir do vácuo, \(\hat H = \sum_a\hbar\,\omega(k_a)\,\hat n_a\).
O caminho completo desta seção parte de estruturas clássicas da cadeia: o produto simplético, conservado pela evolução, e a escolha dos modos de frequência positiva. Elas determinam o espaço de uma partícula; os produtos simetrizados dão os espaços de muitas partículas; e os operadores que passam de um espaço ao outro reproduzem, como comutadores, os parênteses de Poisson da cadeia. O resultado é a cadeia de \(N\) osciladores quânticos, e o limite contínuo dessa construção é o campo quântico de Klein–Gordon.
Conferimos também Equação 29 e Equação 35 com \(N = 64\), \(\hbar = 1\). Os \(\alpha_a\) são funções lineares de \(h^j\) e \(p_j\), com \(\{h^j, p_k\} = \delta^j{}_k\):
max |{alfa_a, alfa_b^*} + i delta| = 6.3e-15, max |{alfa_a, alfa_b}| = 1.5e-15
max |[h^j, p_k]/i - delta_jk| = 2.9e-15
2.7 Exercícios
(Essencial) Demonstre as três propriedades do produto Equação 23 e conclua que toda solução real tem \(\langle \vec h, \vec h\rangle = 0\).
(Essencial) Calcule \(\langle \vec f_a, \vec f_b^{\,*}\rangle\) explicitamente e mostre que é nulo. Obtenha a última forma de Equação 26 de \(\alpha_a = \langle \vec f_a, \vec h\rangle\).
Mostre Equação 27 e Equação 28 completando a conta dos termos cruzados, e Equação 29 a partir de \(\{h^j, p_k\} = \delta^j{}_k\).
Mostre Equação 30. Para \(N = 3\), escreva a matriz \(\sqrt{(KD + K_0 I)/m}\) explicitamente.
Com \(N = 2\) modos, liste uma base de \(\mathcal H_2\) e de \(\mathcal H_3\) e confira a dimensão \(\binom{n + N - 1}{n}\). Escreva os vetores da base como \(\prod_a (a_a^\dagger)^{n_a}/\sqrt{n_a!}\,|0\rangle\).
(Essencial) Mostre Equação 32 a partir de Equação 31 em um estado de \(\mathcal H_1\) e em um estado de \(\mathcal H_2\).
Para um único modo, mostre que \(a^\dagger|n\rangle = \sqrt{n+1}\,|n+1\rangle\), \(a|n\rangle = \sqrt n\,|n-1\rangle\) e \(a^\dagger a|n\rangle = n|n\rangle\), e compare com os níveis de energia de um oscilador harmônico quântico.
Mostre que \(\hat H_{\rm cadeia} = \sum_a\hbar\,\omega_a(\hat n_a + \tfrac12)\) substituindo Equação 34 na Hamiltoniana da cadeia.
Repita a Figura 10 com o produto não simetrizado \(\vec\psi_{\rm E}\otimes\vec\psi_{\rm D}\), que descreve duas partículas distinguíveis. O que muda?
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